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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Só Para Os Que Realmente Foram Regenerados - John Owen (1616-1683)

Só um cristão, isto é, uma pessoa que está verdadeiramente unida a Cristo, é capaz de mortificar o pecado.

 A mortificação é a obra de cristãos: "Se...vós mortificardes..." (Rom. 8:13). Um homem não regenerado (isto é, uma pessoa que não está verdadeiramente unida a Cristo pela fé) pode fazer alguma coisa que se pareça com a mortificação mas não pode mortificar um único pecado de uma maneira aceitável a Deus.

 No capítulo 3 vimos como muitas pessoas sinceramente religiosas (agindo segundo os princípios que lhes foram ensinados pela sua igreja) tentam mortificar seu pecado, mas infelizmente é tudo em vão. Não estamos sugerindo que somente cristãos são obrigados a mortificar o pecado. Não. A mortificação é um dever (como o arrependimento e a fé) que Deus requer de todos os que ouvem o evangelho.

 Aquilo em que estamos insistindo é que só o cristão é capaz de fazê-lo. O incrédulo também é obrigado a fazer isso, porém não é o dever imediato dele. Seu dever imediato é crer no evangelho que lhe foi anunciado. Sem a ajuda do Espírito de Deus a mortificação não pode ser efetuada. Uma pessoa pode mais facilmente ver sem os olhos, ou falar sem uma língua, do que verdadeiramente mortificar um pecado sem o Espírito.

 Mas como pode uma pessoa obter a ajuda do Espírito de Deus? Ele é o Espírito de Cristo e Ele é recebido quando se crê nas boas novas sobre Jesus Cristo - não como um galardão por se ter guardado a lei (veja Gálatas 3:1-5, especialmente o versículo 1). Todas as tentativas para mortificar qualquer lascívia sem fé em Jesus Cristo será de nenhum valor.

 Quando os judeus tiveram convicção de pecado no dia de Pentecoste e exclamaram: "que faremos?", qual foi a resposta de Pedro? Acaso orientou-os no sentido de mortificarem seu orgulho, sua ira, sua malícia, sua crueldade etc? Não. Ele sabia que não era isso que eles precisavam fazer naquela ocasião.

 O que eles precisavam era ser convertidos, arrepender-se de seus pecados e crer em Jesus Cristo (veja A tos 2:38). Pedro sabia que a primeira necessidade do homem era confiar nAquele que ele tinha traspassado e que fazendo isso, o resultado verdadeiro seria a humilhação e mortificação. O mesmo era verdadeiro no ministério de João Batista.

 Os fariseus colocaram sobre o povo deveres pesados e meios rígidos de mortificação tais como jejuns e abluções. João, contudo, pregou a necessidade imediata de conversão e arrependimento (veja Mateus 3:8)O ministério de Cristo foi o mesmo. Ele disse: "Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?" (Mat. 7:16).

 As árvores só podem produzir segundo sua espécie e desse modo Cristo nos diz: "Fazei a árvore boa e o seu fruto (será) bom" (Mat. 12:33). Noutras palavras, a raiz é que precisa ser tratada. A natureza da árvore precisa ser mudada ou é impossível que a árvore produza bom fruto. Este fato é tão básico, todavia tão importante, que precisamos gastar mais algum tempo considerando alguns perigos que resultam de o negligenciarmos ou de o ignorarmos. Focalizaremos apenas três perigos:

1. O perigo de nos desviarmos do dever primário

 Quando este fato básico é ignorado ou negligenciado há o perigo de que a mente e a alma de uma pessoa se tornem por demais preocupadas com um dever que não lhes diz respeito propriamente. O dever primário de uma pessoa é se arrepender e crer no evangelho. Enquanto isto não for feito, nenhum outro dever terá qualquer valor real. Uma pessoa pode despender todos os seus esforços tentando mortificar o pecado quando, na realidade, deveria estar concentrando os seus esforços para obter uma fé salvadora em Cristo.

2. O perigo do auto-engano

 O dever da mortificação é, em si mesmo, uma boa coisa, desde que seja efetuado somente por aqueles que têm uma fé salvadora em Cristo. O perigo é que a pessoa pode aplicar-se ao cumprimento deste dever e presumir que devido agir desta maneira, deve estar agradando a Deus. Por exemplo:

a) Em vez de ir ao Grande Médico das almas para buscar cura mediante Sua morte na cruz, uma pessoa pode se ocupar procurando curar-se a si mesmo através da mortificação. "Quando Efraim viu a sua enfermidade, e Judá a sua chaga, subiu Efraim à Assíria e se dirigiu ao rei principal (Jarebe), que o acudisse" (Os. 5:13) e, desse modo Judá e Efraim se privaram da cura que Deus poderia lhes ter dado.

b) Visto que o dever da mortificação parece demonstrar muita evidência de sinceridade de sua parte, a pessoa pode ser endurecida por ele numa espécie de justiça própria e pode pensar que seu estado é bom.

3. O perigo de estar desiludido pela falta de sucesso

 Um incrédulo pode esforçar-se neste dever e tão-somente para enganar-se. Mais cedo ou mais tarde ele descobrirá que seu pecado não está sendo mortificado e que ele está mudando de um tipo de pecado para outro. Então ele se desesperará, julgando que nunca terá sucesso e consequentemente entregar-se-á ao poder do pecado.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Cinco Características De Uma Falsa Paz - John Owen (1616-1683)

1. Qualquer paz que não traga com ela ódio ao pecado que tem perturbado sua paz é falsa.

 A paz que Deus fala à alma sempre traz com ela um sentimento de vergonha, e um santo desejo de mortificar seus desejos pecaminosos. Se olhar para Cristo, a Quem seu pecado traspassou (se não fizer isso não haverá nem cura e nem paz) você deve prantear (veja Zac. 12:10). Quando você vai a Cristo buscando cura, sua fé repousa em um Salvador ferido e traspassado.

 Ora, se fizer isso na força do Espírito Santo, ser-lhe-á dado ódio pelo pecado que tem perturbado sua paz. Quando Deus nos dá a paz a alma se envergonha dos diversos modos como o pecado tem estragado nossa paz com Deus (Ez. 16:59-63). É possível estarmos perturbados pelas consequências do pecado, mesmo sem odiarmos o próprio pecado.

 Na sua perturbação você pode estar buscando a misericórdia de Deus e ao mesmo tempo se apegando ao pecado que ama. Por exemplo: sua consciência o convence de estar amando o mundo. Esse modo de buscar misericórdia nunca lhe trará paz verdadeiramente sólida. As palavras de Deus: "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (1 João 2:15) perturbam sua paz.

 Na sua perturbação, você se volta para Deus para que Ele cure sua alma, porém está mais preocupado com as consequências do seu amor pelo mundo do que com o mal desse amor. Esse é um mau sinal! Talvez seja salvo; no entanto a não ser que Deus por Suas ações especiais o faça realmente odiar o pecado, você terá pouca paz nesta vida.

2. Qualquer paz que não seja acompanhada pela ação do Espírito convencendo do "pecado e da justiça e do juízo" é uma falsa paz.

 A Palavra de Deus nunca fala de paz "somente em palavras", ela vem no poder do Espírito Santo. A paz de Deus de fato cura a ferida. Quando nos damos a nós mesmos uma falsa paz, não passará muito tempo até que o pecado que havia perturbado nossa paz apareça outra vez. Como regra geral, Deus espera que Seus filhos aguardem até que estejam certos que Ele lhes deu a paz. 

 Como disse o profeta Isaías: "Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei" (Is. 8:17). Deus pode curar a ferida do pecado num instante. Contudo, às vezes, como um médico, Ele gasta tempo limpando a ferida completamente para que ela se cure adequadamente. Aqueles que dão uma falsa paz para si mesmos nunca têm tempo para esperar que Deus faça Sua obra completa.

 Tais pessoas correm para Deus buscando paz e presumem que ela foi concedida no momento em que a pediram. Não há aquele esperar para que o Espírito de Deus cure a ferida do pecado completamente. A paz de Deus dulcifica o coração e dá gozo à alma. Quando Deus fala paz, Suas palavras não são apenas verdadeiras, mas elas fazem bem à alma. "Sim, as minhas palavras fazem o bem" (Miq. 2:7).

 Quando Deus fala paz, ela guia e guarda a alma de modo que não retorne à insensatez (Sal. 85:8). Quando as pessoas falam paz para si mesmas, o coração não é curado do mal e, elas continuam num estado de transvio. Quando Deus fala paz, vem junto uma percepção tal do Seu amor, que a alma se sente obrigada a mortificar os desejos pecaminosos.

3. Toda e qualquer paz que trate do pecado de um modo superficial é uma falsa paz

 Como já vimos antes, esta é a queixa que Jeremias fez dos falsos profetas do seu tempo. "Paz, paz" eles dizem, "quando não há paz" (Jer. 6:14). Da mesma maneira, algumas pessoas fazem da cura de suas feridas pecaminosas uma obra fácil. Olham para algumas promessas das Escrituras e pensam que estão curadas.

 Uma promessa das Escrituras só pode efetuar o bem quando misturada com a fé. (Heb. 4:2). Não se trata de um mero olhar para a palavra de misericórdia e, pronto, isso traz a paz. O olhar precisa estar misturado com a fé até que você a tenha apropriado para si. De outra maneira, qualquer paz que tenha obtido é uma falsa paz. Neste caso não vai demorar muito até que sua ferida se abra novamente e você fique sabendo que ainda não está curado.

4. Qualquer paz que trate do pecado de uma maneira parcial é falsa.

 O cristão sincero não buscará apenas estar em paz com seus desejos pecaminosos que mais o perturbam. Tentar lidar com o pecado que mais o atormenta, sem lidar também com aqueles pecados que o perturbam menos, realmente seria tratar do pecado com parcialidade. Qualquer paz que pareça vir de se lidar com o pecado dessa maneira é falsa.

 Só podemos esperar a paz de Deus quando tivermos respeito igual por todos os Seus mandamentos. Deus nos justifica de todos os nossos pecados. Deus nos manda abandonarmos todos os nossos pecados. Ele é um Deus de olhos puros e não pode olhar para a iniquidade.

5. A paz de Deus é uma paz que nos humilha, como aconteceu no caso de Davi (veja Sal. 51:1)


Pense na profunda humilhação sentida por Davi quando Natã lhe trouxe a palavra perdoadora de Deus (2 Sam. 12:13).

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sem Vencer O Pecado Todo O Resto É Inútil - John Owen (1616-1683)

 Outros deveres da fé cristã não podem ser executados sem a realização deste dever  nosso dever estar "aperfeiçoando a santificação no temor de Deus" (;;2 Cor. 7:1), para estar "crescendo na graça" (2 Ped. 3:18). Entretanto, estes deveres não podem ser cumpridos sem a mortificação diária do pecado. O pecado põe sua força contra cada ato de santidade.

 Antes de passarmos para o próximo capítulo deste estudo será bom fazermos duas coisas:

a) Resumiremos o primeiro ponto geral que temos apresentado neste capítulo. O ponto é este: muito embora a morte do cristão para o pecado (veja Rom. 6:2) tenha sido comprada para ele pela morte de Cristo, constitui-se ainda dever de cada cristão mortificar diariamente o pecado. Mesmo tendo recebido a promessa de vitória completa (pela convicção do pecado, a humilhação pelo pecado, e a implantação de um novo princípio de vida oposto ao pecado e destruidor dele) quando somos convertidos, o pecado ainda permanece no cristão. O pecado está ativo em todos os cristãos, até mesmo nos melhores, enquanto vivem neste mundo. É por isso que a mortificação diária do pecado é vital durante toda nossa vida.

b) Notaremos dois males que todo cristão enfrenta quando deixa de mortificar o pecado. O primeiro afeta o cristão; o segundo, os outros.

i) O cristão. O grande mal por não levarmos a sério o pecado. Uma pessoa pode falar sobre o pecado e dizer quão mau ele é, todavia se essa pessoa não está diariamente mortificando seu próprio pecado ela realmente não o está levando a sério. A causa principal pelo fracasso de mortificar o pecado é algo que está presente e se processando sem que a pessoa perceba. Alguém que tenha a ideia de que a graça e a misericórdia de Deus nos permitem ignorar os pecados do dia a dia, está muito próximo de transformar a graça de Deus numa desculpa para continuar pecando e ser endurecido pelo engano do pecado. Não há maior evidência de um coração falso e corrompido do que esta. Leitor, tenha cuidado com esse tipo de rebelião. Ela só pode levar ao enfraquecimento da sua força espiritual se não a algo pior, ou seja, a apostasia e ao inferno. O sangue de Jesus é para purificar-nos (1 João 1:7; Tito 2:14), e não para nos confortar numa vida de pecado! A exaltação de Cristo é destinada a levar-nos ao arrependimento (Atos 5:31). E a graça de Deus nos ensina "para que reneguemos a impiedade" (Tito 2:11,12). A Bíblia fala de pessoas que abandonam a igreja porque de fato jamais pertenceram a ela (1 João 2:19)
O modo como isso acontece a muitas pessoas é algo como o seguinte:

Estiveram debaixo de convicção do pecado durante certo tempo, e isso as levou a praticar certas boas obras e a professar fé em Cristo. Escaparam das "contaminações do mundo  mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2 Ped. 2:20), mas depois que conheceram o evangelho se cansaram dos seus deveres. Visto que seus corações nunca tinham sido realmente transformados, elas se permitiram negligenciar vários aspectos do ensino bíblico sobre a graça. Uma vez que este mal cativara seus corações, foi tão-somente uma questão de tempo até que se lançaram no caminho do inferno.

ii) Outras pessoas. Uma pessoa que não mortifica o pecado pode, de fato, ser preservada da apostasia; todavia, ao mesmo tempo, pode exercer uma dupla influência nos outros:

(a) Uma influência que endurece os outros. Quando os outros vêem tão pequena diferença entre suas próprias vidas e a vida de uma pessoa que falha na mortificação do pecado na sua vida, não vêem nenhuma necessidade de se tornarem cristãos. Eles observam o zelo dessa pessoa pela religião porém também notam sua impaciência para com aqueles que não concordam com ela. Observam suas várias inconsistências. Vêem sua separação do mundo, mas, além disso, seu egoísmo e sua falta de esforço para ajudar os outros. Eles ouvem seu linguajar espiritual, suas reivindicações à comunhão com Deus, no entanto, essas são contraditórias devido sua conformidade com os caminhos do mundo. Ouvem suas expressões de vanglória por ter sido perdoada, mas observam seu fracasso em perdoar os outros. Observando a baixa qualidade da vida dessa pessoa, endurecem seus corações contra o cristianismo, concluindo que suas vidas são tão boas quanto a de qualquer cristão.

(b) Uma influência que engana os outros. Outros podem tomar essa pessoa como seu exemplo do que seja um cristão e presumir que porque podem seguir seu exemplo, ou até mesmo aperfeiçoá-lo, devem eles também ser cristãos. Dessa maneira, tais pessoas são enganadas e levadas a pensar que são cristãos, muito embora não tenham a vida eterna.