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domingo, 24 de janeiro de 2016

Você é santo? - J. C. Ryle ( 1816-1900)

 "Você é santo"? Escute, rogo-lhe, a pergunta que lhe estou apresentando neste dia. Você conhece alguma coisa a respeito da santidade da qual venho falando?
Não estou perguntando se você frequenta regularmente os cultos de sua igreja, ou se você já foi batizado, ou se costuma participar da Ceia do Senhor, ou se você tem o nome de cristão.

 Estou perguntando algo muito mais profundo do que isso: Você é santo, ou não! Não estou indagando se você aprova a santidade em outras pessoas, nem se você gosta de ler sobre as vidas de pessoas santas, ou de falar sobre as coisas santas, ou se você possui livros sobre a santidade, em sua biblioteca, nem se você deseja ser santo, e espera que venha a atingir a santidade algum dia.

 Estou perguntando: Você é santo hoje, ou não! Mas, por qual motivo estou perguntando de um modo tão direto, pressionando tanto sobre a questão? Assim o faço porque as Escrituras determinam: "...a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor". Isso está escrito. Não é fantasia minha, está na Bíblia; não é a minha opinião particular, é a Palavra de Deus e não a palavra do homem: "...a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb. 12:14).

 Oh, quão perscrutadoras e selecionadoras palavras são essas! Quantos pensamentos me atravessam a mente, enquanto as escrevo! Contemplo o mundo e vejo que a maior parte da humanidade jaz na iniquidade. Contemplo os crentes professos e vejo que a vasta maioria deles nada tem do cristianismo, exceto o nome.

 Examino as páginas da Bíblia e ouço o Espírito afirmando: "...a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor". Sem dúvida este é um texto que nos deve fazer considerar nossos caminhos e examinar nosso coração. Por certo que deveria suscitar dentro em nós solenes pensamentos e compelir-nos à oração.

 Você pode alegar que se preocupa muito e pensa muito a respeito dessas coisas; mais do que alguém possa imaginar. Eu respondo: "Este não é o ponto. No inferno, as pobres almas perdidas fazem muito mais do que isso. A questão não é o que você pensa e o que você sente, mas o que você faz". Você pode dizer que nunca se entende que todo o cristão tem, necessariamente, que ser consagrado, e que santificação, tal como a tenho descrito, é apenas para grandes santos e pessoas altamente dotadas.

 Respondo que: "Não posso ver desse modo nas Escrituras. Leio em 1 João 3:3 que todo o homem que tem esperança em Cristo a si mesmo se purifica". Sem a santificação ninguém verá o Senhor. Talvez você diga: "É impossível alguém ser tão santo e ao mesmo tempo cumprir o seu dever nesta vida. Tal coisa não pode ser feita". Mas, respondo: "Você está enganado. Isso pode ser feito.

 Com Cristo ao nosso lado coisa alguma é impossível. Já foi feito por muitos crentes. Davi, Obadias e Daniel, bem como os servos da casa de Nero, são todos exemplos que comprovam que isso é possível". Talvez você objete: "Se eu fosse assim tão santo, seria diferente das outras pessoas". Respondo: "Sei disso muito bem. É exatamente assim que você deveria ser.

 Os verdadeiros servos de Cristo sempre foram diferentes do mundo ao redor deles, uma nação separada, um povo peculiar. E assim deverá acontecer também no seu caso, se você quiser ser salvo!" Talvez você diga: "Se as coisas tiverem de ser assim, bem poucas pessoas serão salvas". Respondo: "Sei disso. É precisamente assim que somos informados no Sermão da Montanha".

 O Senhor Jesus o disse, há mil novecentos e tantos anos atrás: "...estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela" (Mt. 7:14). Poucas pessoas serão salvas, porque poucas se dão ao trabalho de buscar a salvação. Os homens não querem negar à si mesmos os prazeres do pecado, não querem abandonar os seus próprios caminhos durante esta breve vida terrena.

 Antes, voltam as costas para aquela herança "incorruptível, sem mácula, imarcescível" (I Pe. 1:4). Declarou Jesus: "Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida" (João 5:40). Você, provavelmente, responderá: "Essas declarações são extremamente duras. O caminho é muito estreito". A minha resposta será: "Sei disso. Assim afirma o Sermão da Montanha".

 O Senhor Jesus ensinou isso faz mais de mil e novecentos anos. Ele sempre disse que os homens precisam tomar a sua cruz diariamente, dispondo-se até mesmo a decepar uma mão ou um pé, se quiserem ser Seus discípulos. Na religião, como em outras coisas, "não há avanço sem sofrimento". Aquilo que nada custa, nada vale.

 Sem importar o que nos venha à cabeça para dizer, teremos de ser santos, se quisermos ver o Senhor. No que se reduziria o nosso cristianismo, se assim não fosse? Não devemos apenas trazer o nome de cristão, ser possuidores do conhecimento típico do cristianismo; mas também devemos mostrar o caráter cristão. Devemos ser santos na terra, se quisermos chegar a ser santos no céu. 

 Deus foi quem o disse, e Ele não retrocederá: "...a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor". Observou Jenkyns: "O calendário do papa só declara santos a pessoas mortas, mas as Escrituras requerem a santidade da parte dos vivos". Disse Owen: "Que os homens não se deixem iludir: a santificação é uma qualificação indispensavelmente necessária para quem quiser estar sob a orientação do Senhor Jesus, a fim de ser conduzido à salvação.

 Ele só conduz ao céu àqueles a quem Ele santifica nesta terra. A Cabeça viva não admite membros mortos". Sem dúvida não deveríamos estranhar diante daquela Escritura que diz: "Importa-vos nascer de novo" (João 3:7).

 Certamente que é tão claro quanto a luz do meio-dia que muitos crentes professos precisam de uma completa transformação — novos corações, novas naturezas — se algum dia tiverem de ser salvos. As coisas antigas terão de passar; eles precisam tornar-se novas criaturas. Sem importar de quem se trate, sem a santificação "ninguém verá o Senhor".

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Céu Seria Insuportável ao Homem Mundano! - J. C. Ryle (1816-1900)

 Devemos ser santos porque sem a santidade na terra nunca estaremos preparados para desfrutar do céu. O céu é um lugar santo. O Senhor do céu é um Ser santo. Os anjos são criaturas santas. A santidade está estampada em tudo quanto existe no céu. O livro de Apocalipse expressa: "Nela nunca jamais penetrará cousa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira..!' (Ap. 21:27). Apelo solenemente a todos quantos lerem estas páginas: como é que nós poderemos sentir felizes e à vontade no céu, se morrermos destituídos de santidade?

 A morte não opera automaticamente alguma transformação. O sepulcro não impõe qualquer alteração. Cada indivíduo haverá de ressuscitar com o mesmo caráter com que deu o seu último suspiro. Onde será o nosso lugar, se vivermos hoje estranhos à santidade? Suponhamos por um momento que você tivesse a permissão de entrar no céu sem santidade. O que você faria? Qual prazer você poderia usufruir ali? A qual dentre todos os santos você se achegaria, e ao lado de quem você se sentaria?

 Os prazeres deles não seriam os seus prazeres, os gostos deles não seriam os seus gostos, o caráter deles não corresponderia ao seu caráter. Como você poderia sentir-se feliz, se não tivesse sido santo neste mundo? Atualmente, talvez você prefira a companhia dos negligentes e dos descuidados, dos dotados de mente mundana e dos cobiçosos, dos gozadores e dos que buscam prazeres, dos ímpios e dos profanos. Porém, não haverá tais tipos de pessoas no céu.

 Atualmente, talvez você sinta que os santos de Deus são por demais estritos, solenes e sérios. Você prefere evitar a companhia deles. Você não se deleita na sua companhia. Porém, não haverá outro tipo de companhia lá no céu. Atualmente, você talvez opine que a oração, a leitura da Bíblia e o cântico de hinos evangélicos seja algo embotado e melancólico, uma atividade estúpida, algo que pode ser tolerado vez por outra, mas não usufruído com satisfação.

 Você não poderia passar senão uma pequena fração deste tempo adorando a Deus. Os seus habitantes descansarão ali noite e dia, entoando hinos de louvor ao Cordeiro e exclamando: "Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso". Como é que um homem profano poderia encontrar prazer numa ocupação como essa? Imagina você que uma pessoa profana deleitar-se-ia em encontrar-se com Davi, Paulo e João, após uma vida inteira desperdiçada exatamente na prática daquilo contra o que eles falaram?

 Porventura, ela tomaria doce conselho com esses personagens, e descobriria que tinham muito em comum? Acima de tudo, você imagina que tal pessoa se regozijaria em encontrar-se com Jesus, o Crucificado, face a face, após ter-se aferrado aos pecados por causa dos quais Ele morreu, depois de haver amado os Seus inimigos e desprezado os Seus amigos? Poderia tal pessoa pôr-se de pé diante de Cristo, com toda a confiança, unindo-se ao coro santo: "Eis que este é o nosso Deus, em quem esperávamos, e ele nos salvará; este é o Senhor, a quem aguardávamos, e ele nos salvará; este é o Senhor, a quem aguardávamos a sua salvação exultaremos e nos alegraremos" (Is. 25:9)?

 Antes, você não pensa que os lábios de uma pessoa profana se calariam de tanta vergonha, e que o seu único desejo seria ser expulso dali? Tal indivíduo se sentiria um estranho em uma terra desconhecida, uma ovelha negra em meio ao santo rebanho de Cristo. A voz dos querubins e dos serafins comporiam uma linguagem que ele não seria capaz de entender. O próprio ar lhe pareceria uma atmosfera irrespirável. Não sei dizer o que outros pensariam a respeito, mas, para mim, é claro que o céu seria um lugar insuportável para um homem mundano.

 Não pode mesmo ser de outro modo. As pessoas podem dizer, de uma maneira vaga: "Eles têm a esperança de chegar ao céu". Porém, dizem assim por não considerarem o que estão dizendo. Deve haver um certo preparo para a "herança dos santos na luz" (Cl. 1:12). Nossos corações precisam estar sintonizados com essa herança. Para chegarmos ao descanso da glória, teremos de passar pela escola do treinamento na graça. Teremos de ser dotados de mente celestial, de gostos celestiais na vida que agora é, porquanto, doutro modo, nunca nos encontraremos no céu.