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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Os Instrumento de Satanás - J. I. Packer

 Como é que Satanás tenta? Mediante a sua ' 'astúcia'', isto é, seu "engano" (Ef6.ll; cf. 2 Co 11.3). Normalmente, ele se mantém fora de vista, manipulando "o mundo" (estímulos externos) e "a carne" (desejos desordenados dentro de nós) como seus instrumentos de sedução. Algumas vezes, ele opera através de desejos e necessidades aparentemente inocentes (cf. Gn 3.6; Lc 4.2, 3), ou de conselhos bem intencionados de nossos amigos (cf. Mt 16.22, 23).

 Não há limites para a sutileza de Satanás. Ele tem seus próprios servos, até mesmo na igreja (Mt 13.38), que fazem o papel de pastores e teólogos (2 Co 11.13-15). Claro, eles nem suspeitam que seu ensino e liderança são perversões satânicas do cristianismo, mas é isso que eles fazem, e Satanás faz intenso uso deles.'

 'Quando Satanás sobe a um púlpito, ou a uma cadeira de teologia, e pretende ensinar cristianismo, quando, na realidade, o está corrompendo... pretende ensinar Introdução Bíblica, quando na realidade está deixando a impressão que a Bíblia é um livro que nem é digno de ser exposto — cuidado com ele; ele está na mais perigosa de suas obras" (R. A. Torrey, What the Bible Teaches — O que a Bíblia Ensina — p. 517).

 Crenças erradas acerca de Deus (por exemplo, ressentimento e desespero, cf. 2 Co 12.7), conduta condenável aos olhos do Senhor (cf. 1 Co 7.5) — essas são as finalidades táticas pelas quais Satanás trabalha, e ele dispõe de muitas maneiras de nos conduzir a elas. Sejamos claros quanto a isso. Satanás não tem propósitos construtivos; suas táticas são simplesmente para contrariar a Deus e destruir os homens.

 Da mesma forma que o lema de David Livingstone era: "Para qualquer lugar, contanto que seja para a frente", assim o lema de Satanás é: "Qualquer coisa, contanto que seja contra Deus". O diabo está sempre procurando produzir incredulidade, orgulho, irrealidade, falsas esperanças, confusão mental e desobediência, como fez ao jardim do Éden. E, se ele não puder fazer isso diretamente, então ele se aplica em fazê-lo indiretamente, fomentando o desequilíbrio e a parcialidade.

 Viver a vida cristã é como tocar uma peça musical ao piano, se alguém toca nas teclas erradas, fracassa; se alguém toca nas teclas certas, mas erra quanto ao tempo, ritmo, volume ou interpretação, também fracassa; somente quando as notas e o estilo estão corretos é que a execução é bem-sucedida.  Satanás tanto procura prender-nos na armadilha, levando-nos a fazer aquilo que é formalmente errado, como procura distorcer aquilo que é formalmente correto, em nossos atos e em nossos hábitos, até ao ponto de torná-los errados em seus efeitos.

 Alguns exemplos dessa forma de distorção são os seguintes: pensamento sem ação, amor sem sabedoria, amor à verdade sem amor ao próximo, ou vice-versa, zelo em meio ao erro, ortodoxia junto com injustiça, atitude conscienciosa junto com morbidade e desespero, seletividade nos interesses pessoais em lugar daquilo que é certo ou errado.

 Se formos vigilantes contra Satanás em um ponto da muralha de nosso viver, ele tentará rompê-la em outro ponto, esperando por um momento quando nos sentiremos seguros e felizes, e quando, provavelmente, nossas defesas estarão fracas. Assim prosseguem os seus ataques, o dia inteiro e todos os dias.

As Nossas Armas

 Que segurança temos contra os seus ataques? Como podemos evitar cair vitimados diante deles? Conforme Paulo efetivamente diz, a única esperança consiste em tomarmos "toda a armadura de Deus": o cinto da verdade (o evangelho bíblico); a couraça da justiça (a integridade de uma consciência honesta); a firmeza da postura, provida pelo evangelho da paz (a certeza de que estamos reconciliados com Deus); o escudo da fé (a confiança ativa em Cristo e em suas promessas); o capacete da salvação (a confiança no poder guardador ou conservador de Cristo, agora e para sempre); e também "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus", a arma com a qual nosso Senhor derrotou Satanás no deserto. 

 Tomemos essas armas, diz Paulo, "com toda oração e súplica, orando em todo o tempo, no Espírito", e não precisaremos temer os ataques do diabo. Seremos capazes de reconhecê-los e de resistir-lhes (Ef 6.11-18)Não precisamos temer o resultado deste conflito.

 Pois, em primeiro lugar, Deus está sempre invalidando as tentações de Satanás. Deus nunca permitirá que sejamos tentados acima das nossas forças (1 Co 10.13) De fato, Deus nos expõe à tentação somente a fim de nos fortalecer (1 Pe 5.6-10).

 E, Ele tem prometido esmagar a Satanás, sob os pés do; seus servos, no devido tempo (Rm 16.20)Então, em segundo lugar, Satanás sempre foge quando lhe resistimos. "Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tg 4.7). Oremos ( lutemos; peçamos ao Senhor que se poste ao nosso lado e digamos Á Satanás que se afaste.

 E, pelo menos naquele momento, ele terá de afastar -se. É notável que, na armadura cristã, Paulo nada tenha incluído para nos proteger as costas! Não temos promessa de proteção, se fugirmos A vitória nos é garantida sempre que ficarmos firmes. Satanás é um adversário derrotado e condenado; portanto, "resisti-lhe firmes na fé..

Ora, o Deus de toda a graça,
que em Cristo vos chamou à sua eterna glória,
depois de terdes sofrido por um pouco,
Ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar,
fortificar e fundamentar.
A Ele seja o domínio,
pelos séculos dos séculos. Amém"
(1 Pe 5.9-11).

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Estou Interessado em Crescer? - J. I. Packer


 Em 2Pedro 3.18, o crescimento na graça é apresentado não como uma opção, mas como uma necessidade; não como uma sugestão, mas como uma ordem. Pedro usa o verbo no imperativo: "Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo". Esta é a última ordem do apóstolo, escrita no último versículo de sua última carta, em um momento em que ele sabia que sua morte era iminente (2Pe 1.14)Assim, as suas últimas palavras carregam um peso e significado especiais.

 É como se Pedro estivesse nos dizendo: "Se vocês esquecerem tudo o que eu lhes disse, lembrem-se disto, pois é a coisa mais importante de tudo que lhes tenho dito". E assim, de fato, foi o que aconteceu, porque o pensamento que Pedro estava expressando ali era, na verdade, maior e mais rico do que já vimos. De Ryle, que neste ponto estava seguindo os puritanos, temos até aqui emprestado a frase "crescimento na graça" para indicar "crescimento nas graças" (virtudes, facetas do caráter cristão). Embora isto seja certamente parte do entendimento de Pedro, há muito mais a ser dito a esse respeito. 

 Crescer na graça e no conhecimento de Cristo significa:

• Firmar o entendimento que uma pessoa possui de toda a doutrina da graça que vimos nos capítulos 2º e 3º;

• Aprofundar o relacionamento de fé de uma pessoa com Cristo, e por meio dele, com o Pai e o Espírito, pelo envolvimento consciente com o mesmos e diretamente, em sua vida; e

• Tornar-se mais parecido com Cristo à medida que o Espírito nos assemelha Aquele a quem contemplamos, levando-nos a orar para que sejamos como ele, ajamos de forma a imitá-lo e manifestemos nossa transformação progressiva em direção à sua imagem moral.

 Obedecer esta ordem em uma base constante (que é o que Pedro tem em mente; "crescei" no imperativo para indicar um crescimento contínuo) é uma questão de ser um cristão consciente, e de tentar ser, em todo o tempo, mais cristão, em cada área da vida. Portanto, o crescimento na graça é a verdadeira obra da nossa vida, uma imensa e infindável tarefa.

 Uma vez que é uma questão de ordem, o que temos a fazer é nos submeter à ela, e trabalhar para cumpri-la da melhor forma possível. Isto é o verdadeiro discipulado. É assim que mostramos ser cristãos. O crescimento na graça é, assim, uma prova de fogo para todos nós. Muitos cristãos, no entanto, parecem não crescer na graça, nem se preocupar em crescer.

 Ao que parece, eles se contentam com a sua estagnação ou até recuo espiritual. Isto é trágico. Por quê? Existem várias razões possíveis. Talvez eles nunca tenham lido as palavras de Pedro, nem tenham ouvido que Deus requer que cresçam na graça. As pessoas não têm consciência de coisas das quais são ignorantes.

 Ou talvez eles estejam com um pé atrás por medo de que um compromisso sério para crescer na graça traga uma perturbação e mudança maior em sua vida - e isto provavelmente aconteceria. W. H. Auden testificou sobre o efeito paralisante desse temor em sua indiferente frase: "Preferimos a ruína à transformação".

 Ou talvez eles estejam seguindo a sugestão dos cristãos à sua volta, que também não se preocupam em crescer na graça. Talvez tenham concluído que não precisam se preocupar com isso, sem levar em conta o que a Bíblia diz. Ou talvez tenham perdido o seu primeiro amor por Cristo e pelas coisas divinas e têm, como disse Paulo a Demas, "amado o presente século" (2Tm 4.10).

 Mas, qualquer que seja a razão, seu descaso é desobediente, errado, irresponsável e indefensável. Todos os cristãos têm a obrigação de crescer na graça e no conhecimento de Cristo. Ao iniciar sua carta, Pedro especificou, de um modo muito claro, os pontos do compromisso de crescer na graça.

 "Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo" (2Pe 1.5-8).

 Observe como D, E e P (doutrina, experiência e prática) se encaixam aqui! Esta é uma fórmula que se aplica a tudo. Devo, portanto, encarar o fato de que este é o modo de vida para o qual sou chamado, e que entro em um estado impuro e doentio do coração no momento em que paro de esforçar-me, portanto, por crescer. E o que é verdade a meu respeito, é verdade a respeito de cada um de nós.

domingo, 20 de setembro de 2015

Impecabilidade - J.I.Packer (22/07/1926 - 17/07/2020)

Jesus era totalmente isento de Pecado.
[Cristo] não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca.1 PEDRO 2.22

 O Novo Testamento insiste que Jesus era totalmente  isento de pecado (Jo 8.46; 2 Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1 Pe 2.22; 1 Jo 3.5)Isto quer dizer que não somente Ele nunca desobedeceu a seu Pai, mas que amava a lei de Deus e sentia sincero prazer em cumpri-la.

 Nos seres humanos degradados há sempre alguma relutância em obedecer a Deus, e algumas vezes ressentimento que se transforma em ódio diante das alegações que Ele faz sobre nós (Rm 8.7). Mas a natureza moral de Jesus era inocente, como foi a de Adão antes de seu pecado, e em Jesus não havia nenhuma inclinação prévia de afastar-se de Deus que permitisse a Satanás tirar proveito disso, como há em nós.

  Jesus amava seu Pai e a vontade do Pai de todo seu coração, mente, alma e força. Hebreus 4.15 diz que Jesus foi "tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado". Isto significa que todas as tentações que enfrentamos — para satisfazer erradamente os desejos naturais do corpo e da mente, evitar assuntos morais e espirituais, desviar-se da moral e buscar caminhos fáceis, ser menos do que amável, solidário e bondoso para com os outros, tornar-se auto-protetor e autocomiserativo etc.
 — vieram sobre Ele, mas Ele não cedeu a nenhuma delas.

 A oposição opressora não o subjugou, e diante da agonia do Getsêmani e da cruz lutou contra a tentação e resistiu ao pecado, a ponto de ter seu sangue derramado. Os cristãos devem aprender com Ele a proceder da mesma maneira (Hb 12.3-13; Lc 14.25-33). A impecabilidade de Jesus era necessária para a nossa salvação.

 Não fosse Ele "um cordeiro sem defeito e sem mácula", seu sangue não teria sido "precioso" (1 Pe 1.19). Ele mesmo teria necessitado de um salvador, e sua morte não nos teria redimido. Sua obediência ativa (perfeita conformidade permanente à lei de Deus para a raça humana, e à sua vontade revelada para o Messias) qualificou Jesus a tornar-se nosso Salvador ao morrer por nós sobre a cruz.

 A obediência passiva de Jesus (suportando o castigo da lei violada de Deus como nosso substituto imaculado) coroou sua obediência ativa para assegurar o perdão e aceitação daqueles que colocaram sua fé nele (Rm 5.18,19; 2 Co 5.18-21; Fp 2.8; Hb 10.5-10).