terça-feira, 16 de junho de 2015

O Grande Pecado - C. S. Lewis (1898-1963)


 Chego agora à parte em que a moral cristã difere mais nitidamente de todas as outras morais. Existe um vício do  qual homem algum está livre, que causa repugnância quando é notado nos outros, mas do qual, com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Já ouvi quem admitisse ser mau humorado, ou não ser capaz de resistir a um rabo de saia ou à bebida, ou mesmo ser covarde. Mas acho que nunca ouvi um não-cristão se acusar desse vício.
 Ao mesmo tempo, é raríssimo encontrar um  não-cristão que tenha alguma tolerância com esse vício nas outras pessoas. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo assim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros. O vício de que estou falando é o orgulho ou a presunção. A virtude oposta a ele, na moral cristã, é chamada de humildade. 
 Você deve se lembrar de que, quando falávamos sobre a moralidade sexual, adverti que não era ela o centro da moral cristã. Bem, agora chegamos ao centro. De acordo com os mestres cristãos, o vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. E por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe. Parece que estou exagerando? 
 Se você acha que sim, pense um pouco mais  no assunto. Agora há pouco, observei que, quanto mais orgulho uma pessoa tem, menos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: “Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?” A questão é que o orgulho de cada um está em competição direta com o orgulho de todos os outros. 
 Se me sinto incomodado porque outra pessoa fez mais sucesso na festa, é porque eu mesmo queria ser o grande sucesso. Dois bicudos não se beijam. O que quero deixar claro é que o orgulho é essencialmente competitivo — por sua própria natureza —, ao passo que os outros vícios só o são acidentalmente, por assim dizer. O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. Dizemos que uma pessoa é orgulhosa por ser rica, inteligente ou bonita, mas isso não é verdade.
 As pessoas são orgulhosas por serem mais ricas, mais inteligentes e mais bonitas que as outras. Se todos fossem igualmente ricos, inteligentes e bonitos, não haveria do que se orgulhar. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres. Eliminado o elemento de competição, o orgulho se vai. É por isso que eu disse que o orgulho é essencialmente competitivo de uma forma que os outros vícios não são.
 O impulso sexual pode levar dois homens a competir se ambos estão interessados na mesma moça. Mas a competição ali é acidental; eles poderiam, com a mesma facilidade, ter se interessado por moças diferentes. Um homem orgulhoso, porém, fará questão de tomar a sua garota, não por desejá-la, mas para provar para si mesmo que é melhor do que você. A cobiça pode levar os homens a competir entre si se não existe o suficiente para todos; mas o homem orgulhoso, mesmo que tenha mais do que jamais poderia precisar, vai tentar acumular mais ainda só para afirmar seu poder.
 Praticamente todos os males no mundo que as pessoas julgam ser causados pela cobiça ou pelo egoísmo são bem mais o resultado do orgulho. Veja a questão do dinheiro. A cobiça pode fazer com que o homem deseje ganhar dinheiro para comprar uma casa melhor, poder viajar nas férias e ter coisas mais apetitosas para comer e beber. Mas só até certo ponto. O que faz com que um homem que ganha 10.000 libras por ano fique ansioso para ganhar 20.000 libras? Não é a cobiça de mais prazer.
 A soma de 10.000 libras pode sustentar todos os luxos de que ele queira desfrutar.  É o orgulho — o desejo de ser mais rico que os outros ricos e, mais do que isso, o desejo de poder. Pois, evidentemente, é do poder que o orgulho realmente gosta: nada faz o homem sentir-se tão superior aos outros quanto o fato de poder movê-los como soldadinhos de brinquedo. Por que uma moça bonita à caça de admiradores espalha a infelicidade por onde quer que vá?
 Certamente não é por causa de seu instinto sexual: esse tipo de moça é quase sempre sexualmente frígida. É o orgulho. O que faz um líder político ou uma nação inteira quererem expandir-se indefinidamente, exigindo tudo para si? De novo, o orgulho. Ele é competitivo pela própria natureza: é por isso que se expande indefinidamente. Se sou um homem orgulhoso, enquanto existir alguém mais poderoso do que eu, ou mais rico, ou mais esperto, esse será meu rival e meu inimigo.
 Os cristãos estão com a razão: o orgulho é a causa principal da infelicidade em todas as nações e em  todas as famílias desde que o mundo foi criado. Os outros vícios podem, às vezes, até mesmo congregar as pessoas: pode haver uma boa camaradagem, risos e piadas entre gente bêbada ou entre devassos. O orgulho, porém, sempre significa a inimizade - é a inimizade. E não só inimizade entre os homens, mas também entre o homem e Deus. Em Deus defrontamos com algo que é, em todos os aspectos, infinitamente superior a nós.
 Se você não sabe que Deus é assim — e que, portanto, você não é nada comparado a ele -, não sabe absolutamente nada sobre Deus. O homem orgulhoso sempre olha de cima para baixo para as outras pessoas e coisas: é claro que, fazendo assim, não pode enxergar o que está acima de si. Isso levanta uma questão terrível. Como podem existir pessoas evidentemente cheias de orgulho que declaram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo religiosas? Infelizmente, elas adoram um Deus imaginário.
 Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos comuns mortais. Ou seja, pagam alguns tostões de humildade imaginária para receber uma fortuna de orgulho em relação a seus semelhantes. Suponho que é a esse tipo de gente que Cristo se referia quando dizia que pregariam e expulsariam os demônios em seu nome, mas no final ouviriam dele que jamais os conhecera.
 Cada um de nós, a todo momento, vê-se diante dessa armadilha mortal. Felizmente, temos como saber se caímos nela ou não. Sempre que constatamos que nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons — sobretudo, que somos melhores que os outros —, podemos ter certeza de que estamos agindo como marionetes, não de Deus, mas do diabo. A verdadeira prova de que estamos na presença de Deus é que nos esquecemos completamente de nós mesmos ou então nos vemos como objetos pequenos e sujos.
 O melhor é esquecer-nos de nós mesmos. É uma coisa terrível que o pior de todos os vícios insinue-se assim no próprio centro de nossa vida religiosa. Mas é fácil saber por que isso acontece. Todos os vícios menores vêm do diabo quando trabalha sobre o nosso lado animal. Este vício, porém, não nasce em absoluto da nossa natureza animal. Vem diretamente do inferno. É puramente espiritual: conseqüentemente, muito mais sutil e perigoso. Pela mesma razão, o orgulho é usado com freqüência para vencer os vícios mais simples.
 Os professores, que sabem disso, apelam costumeiramente para o orgulho dos meninos, ou, como dizem, para seu amor-próprio, a fim de fazê-los comportar-se direito. Mais de um homem conseguiu superar a covardia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo da sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho. O diabo ri às gargalhadas.
 Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controlados desde que, em troca, prepare para nós uma Ditadura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar as frieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiritual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do contentamento e até do bom senso.

Antes de sair deste assunto, é bom me resguardar de certos mal-entendidos:

(1) O prazer do elogio não é orgulho. A criança que recebe um tapinha nas costas por fazer bem o dever de casa, a mulher cuja beleza é elogiada pelo marido, a alma salva para quem Cristo diz “Muito bem”: todos ficam contentes, e têm todo o direito de ficar. Em cada uma dessas situações, as pessoas não se comprazem naquilo que são, mas no fato de terem agradado a alguém que (pelos motivos corretos) queriam agradar. O problema começa quando você deixa de pensar “Eu o agradei: tudo está bem”, e substitui esse pensamento por outro: “Eu sou mesmo uma pessoa magnífica por ter feito isso.” Quanto mais você se compraz em si mesmo e menos no elogio, pior você fica.
 Quando todo o seu deleite vem de você mesmo e você não se importa mais com o elogio, chegou ao fundo do poço. É por isso que a vaidade, embora seja o tipo de orgulho mais visível no exterior, é também o menos grave e mais facilmente perdoável. A pessoa vaidosa deseja demais o elogio, o aplauso, a admiração, e está sempre em busca dessas coisas. É um defeito - mas é um defeito quase infantil e estranhamente) bastante modesto. Demonstra que a pessoa não está inteiramente satisfeita com a admiração que nutre por si mesma. Levando em conta a opinião alheia, ela mostra que ainda valoriza um pouco as outras pessoas. Em resumo, ela ainda é humana.
 O orgulho diabólico nasce quando desprezamos tanto os outros que não mais levamos em consideração o que pensam de nós. Evidentemente, é corretíssimo, e às vezes é nosso dever, não nos importar com a opinião dos outros, mas sempre pelo motivo correto, ou seja, porque nos importamos infinitamente mais com a opinião de Deus. Já o homem orgulhoso tem um motivo diferente para não se importar. Ele pensa: “Por que devo me importar com o aplauso da plebe se a opinião dela não vale nada? Mesmo se valesse, não sou de ficar corado por causa de um cumprimento como se fosse uma mocinha em seu primeiro baile.
 Não; sou dono de uma personalidade adulta e integrada. Tudo o que fiz foi para satisfazer meus próprios ideais - ou minha consciência artística — ou minha tradição familiar - ou, resumindo, porque Eu Sou O Tal. Se a turba gosta ou não, o problema é dela. Ela não vale nada para mim.” Dessa maneira, o orgulho plenamente desenvolvido pode até coibir a vaidade; como eu disse agora há pouco, o diabo adora “curar” um defeito menor com um maior. Devemos nos esforçar para não sermos vaidosos, mas não devemos jamais nos valer do orgulho para curar a vaidade.

(2) Dizemos, em inglês [ou em português], que um homem tem “orgulho” de seu filho, de seu pai, de sua escola, de seu regimento. Podemos nos perguntar se, nesse caso, o “orgulho” é um pecado. Acho que isso depende do que queremos dizer com “ter orgulho de algo”. Com muita freqüência, essa expressão significa “ter uma calorosa admiração por algo ou alguém”. Tal admiração, evidentemente, está bem distante do pecado.
 Mas talvez signifique que a pessoa “empine o nariz” por ter um pai ilustre ou pertencer a um regimento famoso. Isso com certeza é um defeito; mesmo nesse caso, entretanto, é melhor isso que ter orgulho de si mesmo. Amar e admirar algo exterior a nós mesmos é um passo para longe da ruína espiritual, desde que esse amor e admiração não sobrepujem o que sentimos por Deus.

(3) Não devemos julgar que Deus proibiu o orgulho porque ele o ofende, ou que a humildade nos foi prescrita por causa de sua dignidade — como se o próprio Deus fosse orgulhoso. Ele não está nem um pouco preocupado com sua dignidade. A questão é simples: ele quer que nós o conheçamos, quer se doar para nós. O ser humano e ele são feitos de tal modo que, no momento em que efetivamente entramos em contato com ele, nos sentimos de fato humildes: deliciosamente humildes, aliviados de uma vez por todas do fardo das falsas crenças sobre nossa dignidade, que só serviam para nos deixar desassossegados e infelizes.
 Deus tenta nos tornar humildes para que esse momento seja possível: o momento de lançarmos fora a tola e horrenda fantasia com que nos adornamos e que nos entravava os movimentos, enquanto a exibíamos por aí feito idiotas. Gostaria de ter mais experiência da humildade. Assim, provavelmente poderia falar mais sobre o alívio e o consolo de despir essa fantasia - de lançar fora esse falso eu, com todos os seus “Olhem para mim” e “Eu sou um bom menino, não sou?”, todas as suas poses e falsas posturas. O mero fato de estar próximo disso, ainda que por um breve momento, é tão reconfortante quanto um gole de água fresca no deserto.

(4) Não pense que, se você conhecer um homem verdadeiramente humilde, ele será o que as pessoas chamam de “humilde” hoje em dia: não será nem uma pessoa submissa ou bajuladora, que vive lhe dizendo que não é nada. Provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe dizer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. 
 Ele não estará pensando sobre a humildade; não estará pensando em si mesmo de modo algum. Se alguém quer adquirir a humildade, creio poder dizer-lhe qual é o primeiro passo: é reconhecer o próprio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais poderá ser feito. Se você acha que não é presunçoso, isso significa que você é presunçoso demais.

Texto extraído do livro: Cristianismo Puro e Simples

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